Sobre o tríptico de Wiertz
O Tríptico de Wiertz, Pensamentos e visões de um decapitado, é um ver e sentir ligado pura e simplesmente a uma consciência. Teria esta cabeça uma memória orgânica, ou uma memória do mundo? Na memória orgânica o pensamento refaz-se no discurso do corpo vivo, algo que se move, que se correlaciona na apreensão do mundo com a realidade, o espaço, a imagem. Uma memória alcançada através de um certo entendimento das coisas, que é a memória de todos. Seria obvio que desta memória se subtrairia a arte. Será provável então que, a experiência da forma ainda se apresente a este estado(?) e assim não pertença a uma memória depositada nas coisas, no mundo construído? Como uma intersubjetividade que exista apenas no conceito, na dança do significado (as vírgulas de Broodthaers são formas). O significado e sua terrível cadeia que abarca a nossa Memória do Mundo poderia assim ser passado de vida para vida? Assim sendo, o espectro conceitual também é a memória de nós mesmos? De qualquer maneira não há forma que se acomode a um sistema de coisas vivas. Impossível refundar uma arte permeadora, que concilia comentário e metamorfose a uma explicação plausível para a matéria que vive. Como fazer isso só com a imagem reproduzível? Numa certa Biblioteca há uma velha máquina xerox ainda percorrendo com o seu facho de luz verde as linhas de velhas letras manuscritas. Amontoadas no chão, à frente da máquina, estão milhares de cópias dos relatos que duas pessoas escreveram, como diálogos paralelos, sempre os mesmos, distantes e muitas vezes repetidos. Apesar de não ter em suas entranhas mais papel de cópia, nem alguém que lhe determine outra tarefa ou descanso, segue no seu ato inútil, a perscrutar minuciosamente os caracteres daqueles originais, com a vã e paciente obstinação de máquina. Qualquer explicação é uma pergunta: uma idéia que se utiliza da imagem, portanto, sacralização do mundo. Prefiro acreditar numa provável aventura da imaterialidade da noção de arte. Alguns artistas percorrem esse universo, não de uma arte que seja imaterial, pois o jovem artista belga Corrilon em sua pretensa crítica a uma ilustração que absolutamente não funciona enquanto proposta plástica e sim, de uma noção de arte. Corrilon, que já na última Documenta reinventa seu poeta de murmúrios, Oskar Serti, que vendo penas a voar, acredita na fé (que só a noção de ansiedade, o terrível conceito de futuro) que sua amada voltará, ou não (como a desordem das coisas e dos acontecimentos) enquanto uma bala arrependida (júbilo do gesto) percorre o ar (imagem, inércia que subscreve o destino) em sua direção (ponto, conceito) cuja observação é um momento de fruição do que chamamos mundo, não da forma. Existe uma fé na matéria, ou no significado? É suficiente dizermos que estamos vendo apenas letras, ou códigos visuais decifráveis, que se referem a sons ancestrais em um papel industrializado nesta obra? Sem responder a isso, é inaceitável metáforas desconstruídas dependuradas por fios de nylons, ou mesmo alegorias de relações entre fotos e uma banheira de chocolates. Tudo nesta Bienal exige um desavisado esforço de significados que matariam Serti, Duchamp e Picasso. Se o mundo é realmente um organismo, se o corpo e seus defeitos nos ligariam a ele, talvez soubéssemos se a chamada memória do mundo se somaria a isso; faríamos, deste modo, uma corrente infinita e, Malevichianamente vazia, da qual gozaríamos das formas, dos espaços, dos sons, das imagens e do tempo, com igual imparcialidade. Gostaria de destacar as imparciais alegorias dos poetas japoneses Endo e Kuroda, pelo exagero deselegante de suas poéticas, a eficiente simbologia aos moldes de um Chesterton do vídeo-artista G. Hill, a Ana Prada por uma correta investigação da imagem, as intransparências de Rosângela Rennó e a simplicidade de Kepimger e Kafka. Talvez juntando esses adjetivos somados aos sonhos de Tunga, estaríamos reinventando algo? Ou submeteríamos a arte ainda a uma arqueologia da forma? Freud, Foucault, Deleuze, Derrida, nos dão forma? Ou ainda Diderot, Bekerley, Heidegger, ou Borges, somados aos contemporâneos, responderão? E quantos Sartres não existiram em sua época, mas de um único temos notícia? Portanto uma fraude da existência... Para qual mar navegará a subjetividade e a objetividade humana, para onde apontaríamos as corretas, mas mesmo assim incompletas, noções de arte? Dispersaríamos, ou melhor, reuniríamos assim a forma, o espaço, o símbolo, o ícone, os códigos, as linguagens, os sons, os medos, as virtudes, as paixões? Ou ainda devolveríamos, à nossa maneira, o mundo, a realidade, ou a realidade desta noção, a um, inteiramente, outro receptor (?), ou não, fazendo o ciclo se repetir, num jogo intraduzível, silencioso e neutro?
Pensamentos e visões de um decapitado Antoine Wiertz pintor belga, do sec. XIX citado numa das placas de Broodthaers
Tríptico: primeiro minuto, segundo minuto, terceiro minuto.
Há pouco ainda rolaram algumas cabeças do cadafalso. Nessa oportunidade ocorreu ao artista a idéia de pesquisar o problema: a cabeça teria a capacidade de pensar por alguns segundos depois de separada do tronco? Eis o relato dessa pesquisa. Em companhia do Sr. ... e do Sr. D., magnetopata especializado, tive acesso ao cadafalso; lá solicitei ao Sr. D. estabelecer contato entre mim e a cabeça cortada, por intermédio de novos procedimentos que lhe pareciam adequados. O Sr. D. concordou. Fez alguns preparativos e então esperamos, não sem emoção, a queda de uma cabeça humana. Assim que chegou o momento fatal, caiu a terrível lâmina, fazendo estremecer toda a armação e rolar a cabeça do julgado pelo horrível saco vermelho. Ficamos com o cabelo em pé, mas não tivemos mais tempo para nos afastar. O Sr. D. me segurou pela mão (eu estava sob a sua influência magnética) levou-me até à cabeça em convulsões e me perguntou: O que está sentindo? O que está vendo? A emoção me impedia de responder na hora. Mas logo depois gritei, com extremo pavor: Horrível! A cabeça pensa! Agora estava querendo me livrar do que inevitavelmente iria acontecer, mas era como se um pesadelo me segurasse. A cabeça do executado enxergava, pensava, e sofria. Quanto tempo durou? Três minutos, como me disseram. O executado deve ter pensado: trezentos anos. O que sofre quem é executado assim não pode ser reproduzido pela linguagem humana. Aqui me limito a relatar as respostas que dei a todas as perguntas, enquanto eu, por assim dizer, estava me identificando com a cabeça cortada.
Primeiro minuto: sobre o cadafalso
Eis as respostas: Um ruído inconcebível rugia em sua cabeça. O ruído do machado que se abaixa. – O delinqüente acredita que foi atingido pelo raio, não pelo machado. – Estranho, aqui debaixo do cadafalso está a cabeça no chão, pensando que ainda está em cima; acredita que ainda faz parte do corpo, e ainda está esperando o golpe que a deve separar. Um sufoco horrível. – Respiração, impossível. – É uma mão não-humana,sobrenatural, desabando como uma montanha sobre a cabeça e o pescoço. De onde vem essa mão horrenda e inumana? A vítima, resignada, a identifica nesse momento: púrpura e armelino roçam os dedos. Sofrimentos mais atrozes estão por suceder.
Segundo minuto: debaixo do cadafalso
A pressão transformou-se em corte. Somente agora o executado toma conhecimento de sua situação. – Com os olhos mede a distância que separa a cabeça do corpo, e reflete: a minha cabeça está cortada. O delírio aumenta freneticamente. Parece ao executado que sua cabeça está pegando fogo e girando em torno de si mesma... E nesse frenesi, um pensamento inconcebível, tresvariado, indizível, apodera-se do cérebro moribundo: Será possível? O homem decapitado ainda tem esperança. Todo o sangue que lhe ficou pulsa mais rapidamente pelas veias e agarra-se à esperança. Chega o momento em que o executado pensa que está estendendo as mãos crispadas, trêmulas, em direção à cabeça. É o instinto que nos faz tapar com a mão a ferida aberta. Isso se dá com o intuito, o horroroso intuito de recolocar a cabeça em cima do tronco, para guardar mais um pouco de sangue, mais um pouco de vida... Os olhos do torturado reviram-se nas órbitas sangrentas... o corpo torna-se rijo como granito... É a morte... Não, ainda não.
Terceiro minuto: na eternidade
Ainda não é a morte. A cabeça continua pensando, e sofrendo. Sofre o fogo que queima, sofre o punhal que estraçalha, sofre o veneno que convulsiona, sofre nos membros que são serrados, sofre nas entranhas que são arrancadas, sofre na carne que é cortada e moída, sofre nos ossos que são fervidos devagar em óleo quente. Todos esses sofrimentos juntos não chegam a dar uma idéia do que se passa com o executado. Nesse momento, um pensamento o faz estarrecer: Já está morto e deverá continuar a sofrer assim? Talvez por toda a eternidade?... Porém, a existência humana lhe escapa; aos poucos lhe parece confundir-se com a noite; de leve ainda passa uma névoa, mas ela também enfraquece e se esvanece; escuridão total... O decapitado está morto.
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