O enredo e a urdidura

Post Scriptum em 23 de novembro de 2006

 comentário sobre opiniões e profecias

Alfredo Braga

Por muito tempo, desde 1995, não respondi a um texto que recebi de Octávio Camargo no qual, como solícito paladino de uma certa e obscura causa, inopinadamente ele procurava justificar as autoras daquele Ensaio Introdutório1, as Professoras Doutoras gaúchas, Regina Zilberman e Maria da Glória Bordini.

Como era apenas um exercício retórico, eu ainda guardava entre outros papéis inúteis aquela vaga argumentação mas, já agora, e frente às ousadas incursões desse multiartista em múltiplas sendas dos palcos, das belas artes plásticas e da homérica literatura, nada seria mais didático do que apresentar os seus arrazoados e as suas transversais contestações ao meu pequeno ensaio. Eis, portanto, aquelas manuscritas opiniões e algumas elaboradas metáforas e raciocínios do escritor, violonista clássico, dramaturgo, compositor, performer, poeta, artista plástico, diretor teatral... Octávio Camargo:

"Li o seu "enredo" e fiquei imaginando como seriam essas moças que se puseram a estudar Borges. Apesar da distorção que fazem da sua obra e do reducionismo ao moralismo trivial, tenho um ponto em seu favor, que é o de se ocuparem de Borges.

"A obra de arte não é um criptograma, código Zenit-Polar inessencial à mensagem que encobre. O prazer estético não é o de achar uma bala de banana com a boca dentro de um prato de farinha. Ver a arte como gincana ou brincadeira de esconde-esconde é infantilismo. Procurar premissas em Borges é infantilismo, necessidade de mistério, como se Borges em vez de artista fosse arteiro. Como se o enunciado pudesse ser substituído por outro mais simples e mais verdadeiro. Como se a comunidade dos artistas tivesse se reunido para nos enganar enquanto no intimo de suas obras fizessem "aquilo" que é proibido e o prazer de "ler bem" Borges fosse análogo ao de olhar uma revista de mulheres ou desmascarar a fábula da cegonha.

"A boa crítica Vem aí uma nova geração de críticos é aquela que é capaz de gerar sentido e não de tirar sentido.

"Rilke dizia que viver é saber complicar, nunca o contrário.

"A cegonha como anagrama tem O cego e a vergonha, os dois pontos do mito edipiano Já desde a antiguidade, ensinam o lugar do homem, da civilização voyerista, que coloca a imagem acima da palavra. Este proceder tenta trazer à Luz o texto obscuro. Por texto obscuro compreendem todo aquele que têm mais de duas páginas e que não cabe no campo simultâneo de visão."

É evidente que o multiartista Octávio Camargo não entendeu o meu "enredo", e nem sequer foi ler o "Ensaio introdutório" das duas ensaístas gaúchas. Mas, entretanto, ele deixa definitivamente esclarecido que "farinha de trigo", "estética" e "doce de banana" são entes distintos em suas especificidades e que, numa "civilização voyerista", "cego" e "vergonha" dão... "cegonha". Logo, e depois de bem aprendermos a "ver a arte", sem "brincadeiras de esconde-esconde", e "saber complicar a vida" edipianamente, sem "infantilismos", só nos resta aguardar o profetizado advento da "nova geração de críticos"... (que iriam substituir Wilson Martins? ou Bruno Tolentino...?) e não seriam, já agora – esses "novos críticos" – os presumidos autores de um certo blog, sempre requentando o santificado "poeta da cidade" e comovendo esse público crédulo em lindos saraus, com O cravo bem temperado, ao violão, como fundo melodioso para dramáticos e entusiasmados recitais de Camões e Homero?

 


NOTA:

1 A literatura, um sonho dirigido - ensaio introdutório. Zilberman, Regina; Bordini, Maria da Gloria. In: Jorge Luis Borges. O informe de Brodie. Porto Alegre, Globo, 1976.


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