O homem que roubou Deus*

Luís de Faria

In Revista Grande Reportagem

Lisboa, 22 de janeiro de 2005

 

Os meios arqueológicos de Israel estão em polvorosa. Um ossuário onde surge uma inscrição em aramaico falando de um tal Tiago, "irmão de Jesus", é falso. Uma tábua com inscrições hipoteticamente da época do templo de Salomão é falsa. Uma romã em marfim oriunda do mesmo templo é falsa também. O cabecilha da rede falsária chama-se Oded Golan. Todos os objetos haviam sido autenticados por cientistas. Em vez de contestar Deus, a ciência parece querer ajudar a roubá-lo.

 

 

E se for tudo mentira? Ou não tudo mas, digamos, um terço? Um terço de um museu importante; digamos, o Museu Nacional de Israel? E com ele os acervos de boa parte de outros museus pelo mundo fora que possuem objetos "da época bíblica"? Que fazer se assim for? Além da credibilidade científica, há o dinheiro. Esses objetos, nalguns casos custaram fortunas. Há semanas, por exemplo, o Museu Nacional de Israel anunciou que um dos seus objetos mais queridos — uma romã em marfim supostamente oriunda do templo de Salomão — afinal não era nada disso. Nos anos 80 do séc. XX, o museu pagara meio milhão de dólares pela romã, depositados numa conta anônima de um banco suíço. A romã não tinha registro de proveniência, mas isso é comum, até para evitar problemas não vá descobrir-se que o objeto foi roubado.

Dias após o museu ter feito a sua espetacular confissão, a Procuradoria-Geral de Israel anunciou que acusava quatro pessoas (e uma quinta não nomeada por ainda se encontrar em paradeiro desconhecido) de pertencerem a uma rede que falsificava objetos arqueológicos. O esquema existia há vinte anos e terá enganado centenas de colecionadores e museus de todo o mundo. O Instituto Arqueológico de Israel, associado à acusação, sugeriu aos museus e outras entidades que verifiquem tudo o que têm. À partida nada é fiável.

Que a intenção existe, existe. As autoridades israelitas, e em especial o Instituto Arqueológico, há muito que tentam iluminar e limpar o mundo escuro de que Golan faz parte. Durante décadas, praticamente não houve supervisão. Os lugares arqueológicos estavam abertos à rapina e surgiam antiguidades por todo o lado, à mistura com as verdadeiras, evidentemente havia as falsas; e quando alguma autoridade questionava a proveniência, a resposta era sempre a mesma: um negociante árabe, geralmente de Jerusalém Velha.

Em 1978, a lei determinou que os achados tinham de ser reportados e pertenciam ao Estado (os achados anteriores continuaram em mãos de particulares). As ilegalidades no negócio passaram a ser de dois tipos: falsificação e roubo. Em muitos casos, é difícil saber de qual se trata, e pode haver as duas. Os dois objetos mais proeminentes associados a Golan são ambos muito antigos, e ambos, ao que parece, falsos.

Um deles é um ossuário de pedra onde consta uma inscrição em aramaico (língua falada na Galiléia no tempo de Cristo) que alude a um tal Tiago, irmão de Jesus (ver Grande Reportagem 170). Em princípio o mesmo Tiago a quem S. Paulo chama o Justo e que identifica como "o irmão do Senhor", numa carta aos Gálatas (Turquia) Percebe-se imediatamente a excitação que semelhante achado despertou quando foi anunciado há dois anos nas páginas de uma revista de referência, a Biblical Archeological Review. O ossuário vinha autenticado por um famoso paleógrafo (especialista em inscrições antigas) francês, André Lamaire. Se fosse verídico, podia constituir prova de que Jesus tinha um irmão, e que portanto sua mãe não seria virgem — assim confirmando a convicção protestante, que nesse aspecto contradiz o dogma católico. Claro que Jesus podia ter tido um irmão não nascido de Maria. José poderia ser viúvo quando casou com ela, e há outras hipóteses: o termo "irmão" não significa forçosamente irmão biológico, mas primo ou tio. As perspectivas quaisquer que fossem eram fascinantes.

Infelizmente não se confirmaram. Uma longa investigação do Instituto Arqueológico determinou que as letras cortam a pátina e que além disso há traços de flúor nela — sugerindo que o ossuário foi fabricado usando água da torneira, pois o flúor é usado na água pública de Israel, como na de outros países, para prevenir cáries. Golan defende-se dizendo que o objeto foi lavado enquanto esteve nas suas mãos, mas os especialistas do Instituto acham a explicação nada credível.

O outro objeto muito falado é uma tábua que ostenta ordens para reparar o templo de Salomão. Também, aí se detectam traços de flúor entre outras coisas.

Segundo a acusação, Golan tinha a operar, desde há décadas, um sistema completo de falsificação que cobria todos os aspectos do negócio, desde o material ao mediático. O método de falsificação era ao mesmo tempo simples e complexo. Simples porque uma vez explicado percebe-se logo como funciona e como é eficaz. Complexo porque depende de um conjunto de condições — incluindo condições psicológicas — para a sua eficácia.

O primeiro passo era arranjar um objeto genuinamente antigo. Ossuários da época bíblica, por exemplo existem em grande quantidade; só o Museu Nacional de Israel tem centenas nas suas caves. Para se lhes atribuir um valor excepcional é preciso terem algo que os distinga. Algo como uma inscrição que sugira terem albergado os restos mortais de alguém como Jesus... ou o seu irmão. É aí que entra a falsificação. Segundo dizem os procuradores, Golan trabalhava com uma verdadeira equipa de especialistas, desde o principal autor material da falsificação — o tal artesão egípcio — até professores universitários e outra autoridades na matéria. Os paleógrafos determinavam a inscrição, o artesão executava, os professores autenticavam.

O cuidado ia ao ponto de as peças nunca serem negociadas diretamente por Golan; ao que parece, ele usava uma série de intermediários pelo mundo afora. Coloca-se a questão, mais uma vez , de saber quais deles estariam de boa-fé. Estes esquemas têm sempre um lado "Alves dos Reis". Aquilo que tornou tão eficaz a fraude das notas do Banco de Angola — pelo menos até estourar — foi o fato de a maior parte dos altos responsáveis envolvidos pensarem que elas eram verdadeiras. Com a fraude de Golan ter-se-á passado o mesmo, pelo menos com algumas pessoas. E quando a história sai a público, admitindo que é verdadeira — ou seja, que os objetos são mesmo falsos e que foram produzidos da forma descrita — a pergunta é: qual o papel de todas as pessoas que estiveram envolvidas no processo? Especificamente, até onde ia a boa-fé de cada uma.

Herschel Shanks, diretor da Biblical Archeological Review, foi o primeiro a dar publicidade ao ossuário; que sabia ele ao certo? A principal autoridade invocada, André Lamaire, já antes autenticara outros objetos que parecem ser falsos. Tê-lo-á feito por ingenuidade? Ou simplesmente por limitações de conhecimento, visto que um juízo desse gênero é quase sempre, por definição, um juízo de probabilidade e não pode ser outra coisa?

A romã que supostamente vinha do templo de Salomão era falsa. Mas em 1979, quando Lamaire a autenticou, ela era tão verdadeira quanto o podia ser à luz dos métodos de verificação que então existiam. Esses métodos evoluíram, e hoje em dia é possível fazer análises — com técnicas de luminescência, por exemplo — que nessa altura não existiam. Mas isso basta para desculpar Lamaire? Não será ele culpado, no mínimo, de se ter deixado entusiasmar? Aliás, qualquer pessoa associada à descoberta de qualquer objeto histórico pode ter a ganhar com isso, e não só em conforto para o ego. Pode haver recompensas materiais e a nível de carreira.

Em Israel, país que assenta a sua legitimidade histórica na narrativa bíblica, nem só o questionamento da veracidade dessa narrativa pode ser um problema. Pôr em causa os vestígios materiais do passado, também. Como se sabe, a religião produz a busca de relíquias. Assim foi na Europa durante séculos. E não é preciso ter lido Eça de Queirós, com as sua histórias de pregos importados de Jerusalém (os verdadeiros pregos da cruz de Cristo) que eram produzidos e vendidos em série, para perceber que a busca desesperada de provas físicas da fé pode levar a todo o gênero de vigarice.

Judeus e palestinos disputam um certo numero de lugares que têm significado histórico e simbólico para ambas as religiões. Qualquer objeto que enfatize a ligação de uma ou outra religião aos lugares em disputa, tornar-se-á ele próprio, objeto de disputa. Já há sites palestinos que usam as fraudes de Golan para argumentar que, uma vez mais, os israelitas recorrem à mentira histórica para fazer valer direitos que nunca tiveram. Nesse sentido, um crime destes tem efeitos perigosos que ultrapassam em muito o aspecto financeiro.

Mas os efeitos mais graves são a nível cultural e científico. Se os especialistas mais reputados podem ser enganados ou deixar-se enganar — ou mesmo serem corrompidos — que confiança merecem as coleções de museus? É verdade que os métodos científicos de detecção estão cada vez mais evoluídos; mas os falsários também.

 


* OBSERVAÇÕES SOBRE A REPORTAGEM O HOMEM QUE ROUBOU DEUS

O Sr. Luis de Faria exagerou no hiperbólico título, O homem que roubou Deus, e depois economizou exageradamente em seu brando texto. Apesar da importância da denúncia, o autor deixou de fazer uma grande reportagem ao se empenhar, visivelmente, em atenuar e limitar as implicações das fraudes cometidas pelo Museu Nacional de Israel em conluio com os Institutos de História e de Arqueologia da Universidade Israelita. Essa movimentação dos arqueólogos judeus não é por acaso, e nem essas manobras são assim tão simples como a pequena reportagem quer fazer crer.

A ganância por dinheiro ou por prestígio acadêmico não são as principais matrizes geradoras desses fatos, e se lançarmos um olhar mais atento sobre esse obscuro horizonte, vamos verificar que o comércio de pequenas relíquias falsificadas por vendilhões, no romance de Eça de Queiros, de modo algum pode ser comparado à escandalosa enxurrada dos "evangelhos" apócrifos "autenticados" por essas "autoridades acadêmicas", e de outros misteriosos "evangelhos" atribuídos a Maria Madalena, ou a Judas, numa orquestração que o autor do texto O homem que roubou Deus, obviamente preferiu não abordar.

É evidente que não foram só os diretores do Museu Nacional de Israel, nem aqueles honrados senhores doutores, os que arquitetaram essa tramóia: eles são peões obedientes e descartáveis1 de uma estratégia maquinada noutra instância, num tabuleiro maior; mas aqui nesta farsa, até o exército judeu, metodicamente, cientificamente, vai bombardeando e destruindo importantes lugares e sítios arqueológicos da história do cristianismo, como o túmulo de São José.

Mas, voltando à pequena reportagem, o autor faz por desconhecer o fato que somente quando os rumores da falsificação e da fraude já circulavam entre os pesquisadores estrangeiros, e estava prestes a estourar o escândalo por toda a comunidade acadêmica internacional, foi que o Museu Nacional e a Procuradoria Geral de Israel, se apressaram a mandar "investigar o assunto". Entretanto, e durante décadas, o malicioso objetivo havia sido logrado e outras formas de sabotagem já teriam um substrato psicológico para se infiltrarem e instalarem como, por exemplo, vários filmes e livros, como O código Da Vinci, em que os fundamentos da Igreja são atacados e vilipendiados com "provas" e "argumentos" anteriormente forjados por doutores judeus nas universidades hebraicas.

Finalmente, também é notável, e bastante significativo, que entre as graves conseqüências decorrentes desses atos criminosos, o Sr. Luís de Faria apenas entenda que os "efeitos mais graves" estejam no âmbito "da cultura" e "da ciência". O indecente desrespeito às mais elementares noções da ética e os indeléveis prejuízos morais e afrontas espirituais – sofridos não só por toda a comunidade católica, mas por todos aqueles, homens e mulheres de qualquer crença, raça ou nacionalidade, que vêm sendo insultados pelo farisaísmo e fraudes dessas instituições judias – para ele são "apenas" meros aspectos secundários ou "efeitos" desimportantes?

Ele acha perigosa a indignação do povo palestino, mas não o profundo cinismo do usurpador judeu.

 

Alfredo Braga

 

 


NOTAS:

1 E agora está absolutamente evidente que não estamos lidando com pessoas honestas: Logo que a poeira do escândalo assentou, imediatamente arranjaram outros "arqueólogos" e voltaram à carga com a mesma tramóia e a mesma impostura para tentar denegar, a qualquer custo, a dignidade dos santos da Igreja e a divindade do Cristo. Nesse macabro concerto, desde fevereiro de 2007, a mídia judaica afina-se em ladina orquestração e conluio com a indecente "arqueologia israelita".


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