Desmascarando eufemismos

na cobertura jornalística da Intifada

 

Brian Whitaker

Guardian Unlimited

9 de abril de 2001

 

Uma história rotineira do Oriente Médio: "Palestinos lançaram nesta madrugada três bombas contra o assentamento de colonos Eile Sinai no extremo norte da Faixa de Gaza. As tropas israelitas responderam com bombardeios de tanques, destruindo um posto de fronteira palestino e atingindo duas casas".

Essa notícia, que acaba de sair na BBC, é familiar não somente pelos eventos que descreve, mas também pela maneira como os descreve: os palestinos "atacam" e os israelitas "respondem".

Ações militares por parte dos israelitas são sempre "resposta" a alguma coisa, mesmo quando eles atacam primeiro. Se não foram efetivamente atacados, é uma "resposta" a ameaça à sua segurança.

"Resposta" é uma palavra muito útil.

Fornece uma razão pronta para as ações israelitas e elegantemente descarta demandas por maiores explicações. Diz: "Não nos perguntem por quê fizemos isso, perguntem a eles ".

Representar o conflito como uma série de ações palestinas e de respostas israelitas é perigoso por várias razões.

Primeiro, reforça o argumento israelita de que tudo ficará bem somente se os palestinos encerrarem a sua violência. Isso poderia ser verdadeiro para muitos israelitas, mas não para os palestinos.

Segundo, isso incide — através de repetição constante — em um quadro enganoso do conflito como um todo.

Terceiro, enquanto as ações israelitas são noticiadas como uma "resposta" que se auto-justifica, as ações dos palestinos raramente são situadas dentro do contexto correto, ou atribuídas a um motivo compreensível.

Obviamente, há um limite para o que pode ser dito no relato de uma notícia de trezentas, ou quatrocentas palavras, e alguns jornalistas argumentarão que seu ofício principal é noticiar os eventos do dia, não explicar o seu contexto.

Mas não estou sugerindo que eles deveriam transformar suas notícias numa conferência de história; apenas que deveriam pelo menos sugerir num contexto e num reconhecimento mais amplo que os palestinos podem ter algumas queixas legítimas. Fazer isso não é difícil nem representa desperdício de palavras.

Alguns informes das agências de notícias, por exemplo, costumam fazer habitualmente uma referência de seis palavras à "luta palestina contra a ocupação israelita".

A ocupação israelita jaz na raiz do conflito — e ainda assim, na maioria dos casos, os jornalistas esquecem de lembrá-la a seus leitores.

O arquivo eletrônico de notícias do jornal The Guardian contém todos os fatos nacionais do dia-a-dia, inclusive do The London Evening Standard. Uma pesquisa nele revela 1.669 notícias publicadas durante os últimos 12 meses que mencionaram a Cisjordânia. Destas, 49 continham a frase "a Cisjordânia ocupada".

Outras 513 notícias incluíam as palavras "ocupada" ou "ocupação" em outras partes do texto.

Isso deixa 1.107 notícias — 66% do total — que conseguiram falar da Cisjordânia sem mencionar um desses fatos importantes.

Alguns jornalistas — principalmente os americanos — parecem relutar em tratar a ocupação como um fato concreto, preferindo tratá-lo como uma opinião que poderia ser atribuída a alguém.

Em outubro passado, por exemplo, o chefe da agência da CNN em Jerusalém disse a observadores que os palestinos estavam furiosos com o que "eles encaravam como a ocupação israelita".

Outros recorrem a eufemismos: a Cisjordânia é "disputada" ou "administrada por Israel". Alguns adotam a prática das autoridades israelitas, abreviando "os Territórios Ocupados" para "os Territórios".

Os jornalistas também são um tanto tímidos sobre a questão dos colonos judeus, retratando-os habitualmente como alvo da violência, mas raramente como uma de suas principais causas (o que efetivamente são).

Algumas das notícias recentes sobre a morte de uma criança judia de dez meses, Shalhevet Pass, em Hebron, deixou claro que os colonos ali são um grupo pequeno e particularmente fanático — embora a maioria das notícias não façam referência a isso.

Uma notícia descreve Hebrom como "uma cidade dividida", quando, de fato, 99.8% dos seus habitantes são palestinos.

Nos últimos 12 meses, 394 notícias do arquivo mencionaram os colonos judeus. Destas, sete incluem a frase "colono extremista" e oito "colono judeu extremista". A palavra "extremista" ocorreu em 44 notícias, embora não necessariamente aplicada aos colonos judeus. Algumas notícias colocaram lado a lado colonos caracterizados simplesmente como "judeus" e palestinos caracterizados como "extremistas".

A ilegalidade dos assentametos ante o direito internacional também é omitida com freqüência.

A frase "assentamento ilegal" usada no contexto israelo-palestino, apareceu somente oito vezes nos últimos 12 meses — e três delas foram em cartas de leitores ao editor

Durante os primeiros estágios da Intifada os jornais foram acusados de "desumanizar" os palestinos por publicarem números, mas não os nomes daqueles mortos. Isso contrastava com a riqueza de informação pessoal, providencialmente fornecida pelas autoridades israelitas, sobre baixas judias.

Uma pesquisa feita na semana passada no arquivo do The Guardian revelou uma outra prática que tem um efeito similar: Os judeus vivem principalmente em "comunidades", mas os palestinos vivem em "áreas". As "áreas" palestinas mereceram 109 registros nos últimos 12 meses; "subúrbios", 15 e "comunidades" somente três (respectivamente nos jornais The Guardian, Observer e Independent).

No caso dos judeus, as posições foram revertidas: "comunidades" tiveram 87 registros, "subúrbios" 30 e "áreas" 21. O padrão geral sugere uma percepção de que os palestinos são menos civilizados.

Outro fator é que "subúrbio" e, num contexto menor, "comunidade" são usados como eufemismos para assentamentos de colonos judeus.

Os porta-vozes israelitas descrevem regularmente o assentamento Gilo como um "subúrbio" de Jerusalém, porque foi unilateralmente anexado. Uma notícia recente saída no Times, seguindo na tradição da CNN, disse que os "palestinos encaram Gilo como um assentamento ilegal". De fato eles o fazem, mas assim também o faz o direito internacional.

 


Indique esta página a outras pessoas

A Palestina

Massacre em Gaza

Gandhi e a Palestina

The Electronic Intifada

Khalil Sakakini Cultural Centre

 

contato  biblioteca  discussões  digressões  ensaios  omar khayyam contos  textos  poemas  conexões  sob censura

Sorry, your browser doesn't support Java(tm).