A gota d’água

Luis Cela Dimas

 

A Alberto Dines:

 

Acompanhava com interesse seu programa, Observatório da Imprensa. Gostava. Me admira sua calma, ponderação e, o que, até então julgava, sua lucidez e imparcialidade. A questão abordada na época era a sua alegação de que a mídia extrapolava, ao veicular as imagens daquela semana: um garoto palestino e seu pai crivados de balas pelo Exército de Defesa Israelense, que é tão somente o exército de ocupação.

Ao ver a cena, o horror estampado no rosto daquela criança apavorada, eu senti o mais profundo mal-estar espiritual. Ela implorava por salvação ao lado do pai, clamava, por qualquer providência que os poupassem, acuados sem poder esboçar qualquer movimento, encurralados contra uma parede. A pessoa humana que assista a essa cena não pode conceber o desfecho inexorável, aterrador, o prenúncio que se avizinha é inimaginável. Pai e filho tombam ante uma rajada assassina, como meros sacos de batata que se esvaem, inertes.

Em casa, diante da tela desesperançada da TV, cessou a vida.

Esse assassinato brutal, chocante, abjeto, depravação sanguinária, era classificado por você como excessiva veiculação na mídia, exagero, arma de propaganda. Parafraseando a Academia Sueca — em arrependimento por haver concedido a Shimon Peres, a pomba conduzida ao mais profundo ridículo do gabinete Sharon, um Nobel da Paz — sua vibrante defesa desta tese foi para mim "aberrante e grosseira".

Na mesa havia três integrantes da sinagoga mundial, como classifica, igualmente calmos e ponderados. Existe, quer entre os judeus que não são israelenses, quer entre israelenses, que são quase todos judeus, o mais variado espectro de opiniões, muitas extremamente surpreendentes sobre o conflito israelenses X palestinos. Nenhuma suspeita aparente no fato. Mas não havia ninguém, um único indignado do "lado oposto"? O estranhamento ao fenômeno foi sugerido em pergunta no ar, que foi minimizada, para não dizer ironizada.

Desde então não me interessou mais seu programa, por haver perdido algo de essencial: credibilidade e isenção. O tal exagero ocorre com freqüência quase rotineira.

Meu repúdio de consciência não foi boicote. Afinal, o programa não vive do Ibope e minha decisão respeita tão somente a minha consciência. Talvez tenha sido próxima à dos leitores de Israel, que devolvem agora livros de Saramago (duvido que queimem).

O fuzilamento de um garoto e seu pai, por um exército de ocupação que se arroga tal espécie de crime, a rotina da população palestina espezinhada por humilhação constante, demolições, confinamento e política de execuções sumárias me eram repugnantes, mas nem de longe imaginável o horror desse martírio palestino que agora se afigura.

Não lhe tenho antipatia, continuo a admirar sua calma e ponderação. Me causa repúdio sim vê-las ante tamanha barbárie e cinismo. Não acompanho seus artigos, mas considero que escreve muito bem, um tanto barroco, talvez. Nas raras vezes que o fiz, pude constatar a virulenta crítica, incisiva, que fez às pútridas oligarquias nordestinas. Nenhuma palavra decente ante o horror vivido pelo povo palestino. Manifesto minha indignação na forma com que os palestinos são tratados nos seu artigos, premiados com ironias e descaso.

Definitivamente não tem a grandeza de um Érico Verissímo, a quem evoca, em abordar os pobres, os humilhados. Nesse momento, tanques deslizam sobre carros de gente humilde, com nenhuma complacência, dignos da conduta das SS e seu desprezo por povos "inferiores". Bens materiais adquiridos com tanto sacrifício sendo pulverizados em questão de minutos. Descaso completo e criminoso por prédios, infra-estrutura, água, hospitais, recusa em permitir atendimento aos feridos, prática indiscriminada e validada de tortura, abolição de qualquer conduta de direito humanitário. Descaso pela vida.

Limpeza étnica.

Se não cheira mal como nazismo, apartheid, que raios de "ismo" é esse? Me orgulho de ostentar o sobrenome Cela, pois sou parente distante do grande escritor e Nobel de Literatura, Camilo José Cela que, se na Guerra Civil Espanhola combateu do lado errado, depois rechaçou a ditadura franquista mantendo atitude sempre independente e provocativa. Tradição em que se incluem José Saramago e Wole Soyinka,

A sua ilustração e discernimento à la Espinoza não correspondem. Não sei se sofre de miopia, cegueira, ou que patologia seja.

Duvido que seja agnóstico. No seu íntimo deve ter se rendido às dúvidas, em face do Yavhé cruel que passa tribos a fio de espada. Deve estar exultante como as massas que entronizam Sharon às alturas de deus da guerra em Israel.

Por fim feliz deve estar com o fotógrafo italiano saraivado de projéteis de tanque, outro fotógrafo escapando do tiro de fuzil graças ao colete à prova de bala, a equipe americana expulsa e a francesa espancada. Afinal, isso não importa. Estão a serviço da manipulação.

Afinal, Qbya, Sabra e Chatila, desespero, trinta anos de ocupação ilegal, e agora Ramallah, Nablus, Jenin, Gaza etc. etc. não importam. Não são nada. Do seu Observatório da Imprensa você não vê coisa alguma.

Nesse Dia da Shoah, um feliz holocausto palestino.

 


Desmascarando eufemismos

na cobertura jornalística da Intifada

 

Brian Whitaker

Guardian Unlimited

9 de abril de 2001

 

Uma história rotineira do Oriente Médio: "Palestinos lançaram nesta madrugada três bombas contra o assentamento de colonos Eile Sinai no extremo norte da Faixa de Gaza. As tropas israelitas responderam com bombardeios de tanques, destruindo um posto de fronteira palestino e atingindo duas casas".

Essa notícia, que acaba de sair na BBC, é familiar não somente pelos eventos que descreve, mas também pela maneira como os descreve: os palestinos "atacam" e os israelitas "respondem".

Ações militares por parte dos israelitas são sempre "resposta" a alguma coisa, mesmo quando eles atacam primeiro. Se não foram efetivamente atacados, é uma "resposta" a ameaça à sua segurança.

"Resposta" é uma palavra muito útil.

Fornece uma razão pronta para as ações israelitas e elegantemente descarta demandas por maiores explicações. Diz: "Não nos perguntem por quê fizemos isso, perguntem a eles ".

Representar o conflito como uma série de ações palestinas e de respostas israelitas é perigoso por várias razões.

Primeiro, reforça o argumento israelita de que tudo ficará bem somente se os palestinos encerrarem a sua violência. Isso poderia ser verdadeiro para muitos israelitas, mas não para os palestinos.

Segundo, isso incide — através de repetição constante — em um quadro enganoso do conflito como um todo.

Terceiro, enquanto as ações israelitas são noticiadas como uma "resposta" que se auto-justifica, as ações dos palestinos raramente são situadas dentro do contexto correto, ou atribuídas a um motivo compreensível.

Obviamente, há um limite para o que pode ser dito no relato de uma notícia de trezentas, ou quatrocentas palavras, e alguns jornalistas argumentarão que seu ofício principal é noticiar os eventos do dia, não explicar o seu contexto.

Mas não estou sugerindo que eles deveriam transformar suas notícias numa conferência de história; apenas que deveriam pelo menos sugerir num contexto e num reconhecimento mais amplo que os palestinos podem ter algumas queixas legítimas. Fazer isso não é difícil nem representa desperdício de palavras.

Alguns informes das agências de notícias, por exemplo, costumam fazer habitualmente uma referência de seis palavras à "luta palestina contra a ocupação israelita".

A ocupação israelita jaz na raiz do conflito — e ainda assim, na maioria dos casos, os jornalistas esquecem de lembrá-la a seus leitores.

O arquivo eletrônico de notícias do jornal The Guardian contém todos os fatos nacionais do dia-a-dia, inclusive do The London Evening Standard. Uma pesquisa nele revela 1.669 notícias publicadas durante os últimos 12 meses que mencionaram a Cisjordânia. Destas, 49 continham a frase "a Cisjordânia ocupada".

Outras 513 notícias incluíam as palavras "ocupada" ou "ocupação" em outras partes do texto.

Isso deixa 1.107 notícias — 66% do total — que conseguiram falar da Cisjordânia sem mencionar um desses fatos importantes.

Alguns jornalistas — principalmente os americanos — parecem relutar em tratar a ocupação como um fato concreto, preferindo tratá-lo como uma opinião que poderia ser atribuída a alguém.

Em outubro passado, por exemplo, o chefe da agência da CNN em Jerusalém disse a observadores que os palestinos estavam furiosos com o que "eles encaravam como a ocupação israelita".

Outros recorrem a eufemismos: a Cisjordânia é "disputada" ou "administrada por Israel". Alguns adotam a prática das autoridades israelitas, abreviando "os Territórios Ocupados" para "os Territórios".

Os jornalistas também são um tanto tímidos sobre a questão dos colonos judeus, retratando-os habitualmente como alvo da violência, mas raramente como uma de suas principais causas (o que efetivamente são).

Algumas das notícias recentes sobre a morte de uma criança judia de dez meses, Shalhevet Pass, em Hebron, deixou claro que os colonos ali são um grupo pequeno e particularmente fanático — embora a maioria das notícias não façam referência a isso.

Uma notícia descreve Hebrom como "uma cidade dividida", quando, de fato, 99.8% dos seus habitantes são palestinos.

Nos últimos 12 meses, 394 notícias do arquivo mencionaram os colonos judeus. Destas, sete incluem a frase "colono extremista" e oito "colono judeu extremista". A palavra "extremista" ocorreu em 44 notícias, embora não necessariamente aplicada aos colonos judeus. Algumas notícias colocaram lado a lado colonos caracterizados simplesmente como "judeus" e palestinos caracterizados como "extremistas".

A ilegalidade dos assentametos ante o direito internacional também é omitida com freqüência.

A frase "assentamento ilegal" usada no contexto israelo-palestino, apareceu somente oito vezes nos últimos 12 meses — e três delas foram em cartas de leitores ao editor

Durante os primeiros estágios da Intifada os jornais foram acusados de "desumanizar" os palestinos por publicarem números, mas não os nomes daqueles mortos. Isso contrastava com a riqueza de informação pessoal, providencialmente fornecida pelas autoridades israelitas, sobre baixas judias.

Uma pesquisa feita na semana passada no arquivo do The Guardian revelou uma outra prática que tem um efeito similar: Os judeus vivem principalmente em "comunidades", mas os palestinos vivem em "áreas". As "áreas" palestinas mereceram 109 registros nos últimos 12 meses; "subúrbios", 15 e "comunidades" somente três (respectivamente nos jornais The Guardian, Observer e Independent).

No caso dos judeus, as posições foram revertidas: "comunidades" tiveram 87 registros, "subúrbios" 30 e "áreas" 21. O padrão geral sugere uma percepção de que os palestinos são menos civilizados.

Outro fator é que "subúrbio" e, num contexto menor, "comunidade" são usados como eufemismos para assentamentos de colonos judeus.

Os porta-vozes israelitas descrevem regularmente o assentamento Gilo como um "subúrbio" de Jerusalém, porque foi unilateralmente anexado. Uma notícia recente saída no Times, seguindo na tradição da CNN, disse que os "palestinos encaram Gilo como um assentamento ilegal". De fato eles o fazem, mas assim também o faz o direito internacional.

 


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