Anti-semitismo e anticristianismo

Ives Gandra Martins

Jornal do Brasil

1º de julho de 2004

 

 

Recentemente, o Supremo Tribunal Federal decidiu que determinado livro contendo interpretação distorcida do holocausto do povo judaico, em mãos de Hitler, era anti-semita e racista, considerando que discriminava os judeus, nada obstante muitos terem argumentado que o judaísmo não seria uma raça e que o ordenamento consagra a ampla liberdade de cada autor de manifestar sua opinião, ao interpretar os fatos históricos.

Não pelos fundamentos que os eminentes ministros utilizaram para decidir a matéria levada à Suprema Corte, estou convencido de que o povo judeu — que só se mantém unido, através dos séculos, por força de sua convicção nos valores e tradições que o conformaram, ao longo do tempo — fez bem de reagir a uma interpretação insólita dos dolorosos episódios representados pela perseguição nazista.(*)

Por atacar os valores islâmicos, determinado autor inglês(**) foi obrigado a pedir proteção governamental e a esconder-se, por ter sido jurado de morte. Sem que esteja de acordo com a reação fundamentalista, não posso deixar de considerar que suas idéias geraram reação dos seguidores de Maomé que se sentiram profundamente atingidos em suas convicções, pelo descuidado autor.

A Igreja Católica tem sido mais atacada do que judeus e islâmicos. Em relação a ela, todavia, a mídia sempre considera que tais ataques exteriorizam, apenas, a liberdade de expressão.

O Cardeal Eugênio Salles, pelas páginas do Jornal do Brasil do dia 19/06/06, afirmou que há uma evidente reação contrária à Igreja, absolutamente injustificável, relatando, com serenidade e pertinência, como tais ataques se concretizam, na atualidade.

Tem ele toda a razão, na medida em que livros, absolutamente sensacionalistas e com exclusivo apelo comercial — como, por exemplo, este amontoado de mentiras e calúnias, que é o "Código da Vinci" — assim como artigos, novelas, filmes e outras manifestações buscam desfigurar a imagem de Cristo, da Virgem e dos Santos, com o único intuito de jogar por terra todos os valores da civilização cristã, preservados através dos séculos.

O tratamento que se dá ao "anti-semitismo" e ao "anticristianismo" na imprensa é, indiscutivelmente, paradoxal. Não se admite a discriminação "anti-semita" — com o que estou absolutamente de acordo — mas estimula-se a discriminação "anticristã", através de todas as formas de expressão, como se os valores que a perfilam, devessem ser reformulados, porque ao estilo do suicida Nietzche, "Deus teria morrido". José Lino Nieto, em seu livro "A vontade do Poder" (Ed. Quadrante) observa, entretanto, que a "Morte de Deus", é, em verdade, a "morte dos homens".

E a reação cristã é praticamente nenhuma. Valoriza-se a família gay e desvaloriza-se a família tradicional — única reconhecida pela Constituição, ou seja, formada por um homem e uma mulher (art. 226, § 3º) — como se o fato de os casais constituírem famílias fosse coisa do passado. Valoriza-se a preservação das espécies em extinção, sendo crime atentar contra os embriões de um urso panda, mas defende-se, abertamente, o homicídio uterino de inocentes para conforto da mãe, nada obstante o direito à vida desde a concepção estar garantido pelos caput e § 2º do art. 5º da C.F. e pelo art. 4º do Pacto de São José de que o Brasil é signatário.

O "querer levar vantagem em tudo" torna a sociedade cada vez mais egoísta e o pisoteio de valores cristãos termina por acarretar um consumismo sem precedentes e um materialismo sem alma. A célebre premissa de Descartes, penso, logo existo, é alterada para "consumo, logo existo". A própria ética torna-se, em todas as profissões, principalmente nas atividades políticas, artigo raro, anacrônico e que deve ser esquecido.

O interessante, todavia, é que, no contacto individual, cada pessoa reconhece que a sociedade está doente, que precisa melhorar,  que há necessidade de busca de valores. Mas a "contaminação coletiva", que resulta desta falta de um referencial maior, mina a força necessária e suficiente para uma reação semelhante à do povo judeu junto à mídia e até perante os tribunais, como ocorreu no episódio objeto da ação apreciada pela Suprema Corte.

O personagem de Dostoiewisky, no livro Irmãos Karamazov, declara, com pertinência, que "se Deus não existe, tudo é permitido", pois a morte tudo termina. A sociedade atual, que quer negar a Deus, vive, neste triste ambiente, de desconfiança, insegurança, egoísmo e desespero, desembocando, na violência, nas drogas, nos desvios sexuais, na desesperança, o seu profundo vazio existencial.

Embora viver não seja arte para amadores, é mais fácil viver imbuído de valores cristãos, do que sem eles.

Por essa razão, a defesa desses valores deveria ser o caminho natural daqueles que acreditam em Cristo.

 


NOTAS:

(*) .... há uma gama de denúncias mais ou menos consentidas (kosher) nas quais a reverência e o cuidado com a preservação do mito do "Holocausto" são observados ....

Robert Faurisson

(**) Salman (Salomão) Rushdie, o autor de Os versos satânicos, é um judeu nascido na Índia.


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