Mahmoud Ahmadinejad O Presidente da República Islâmica do Irã Em entrevista à Der Spiegel Teerã, 31 de maio de 2006
— Sr. Presidente, o Sr. é um fã de futebol e até mesmo gosta de jogar. Quando a seleção do Irã jogar contra o México, em 11 de junho, na Alemanha, o Sr. estará sentado no estádio de Nuremberg? — Depende. Certamente o verei, porém, não sei se em casa ou em outro lugar. Minha decisão depende de várias coisas. — Por exemplo? — De quanto tempo eu tenha, de como caminharão alguns assuntos, se estarei com vontade, e de outros assuntos. — Tem havido muita indignação na Alemanha, quando o Sr. disse que iria apresentar-se. Como vê isso? — Não, isso não é o importante. Nem sequer sei porque aconteceu isso. Não tem importância para mim. Não sei porquê se armou essa agitação. — Tem a ver com sua opinião sobre o Holocausto. É natural que a negação do assassinato sistemático dos judeus por parte dos alemães provoque indignação na Alemanha. — Não entendo bem a conexão. — Primeiro, faz públicas suas opiniões sobre o Holocausto. Depois, chega o seu anúncio de que pensa em viajar à Alemanha, o que origina uma agitação. E o Sr. ainda estranha o fato? — Não, de forma alguma isso me admira, visto que as redes sionistas são muito ativas em todo o mundo e também na Europa. Sendo assim, não me surpreendeu. Nós nos dirigíamos ao povo alemão, não temos nada a ver com os sionistas. — Negar o Holocausto é um delito na Alemanha. O Sr. é indiferente à violação dessa lei? — Sei que Der Spiegel é uma revista respeitada. Porém, não sei se é possível para vocês publicarem a verdade sobre o Holocausto. Permitem-lhes publicar a verdade? — É claro que nos é permitido publicar nossas investigações sobre o que ocorreu há sessenta anos. Sob nosso ponto de vista, não há dúvida de que, desgraçadamente, os alemães têm culpa da morte de seis milhões de judeus. — Bem, chegamos a um ponto muito concreto da discussão. Estamos afrontando duas questões. A primeira é: Ocorreu realmente o Holocausto? Você responde afirmativamente. Assim, a pergunta é: De quem foi a culpa? A resposta a isso tem que vir da Europa, e não da Palestina. Está perfeitamente claro: Se o Holocausto ocorreu na Europa, então a solução desse problema tem que estar na Europa. Por outro lado: Se o Holocausto não existiu, então, porquê esse regime de ocupação ..... — Quer dizer o Estado de Israel? — ..... aconteceu? Por que os Estados europeus unem-se para apoiar esse regime? Permita-me uma coisa: Somos da opinião de que se um acontecimento histórico se sujeita à verdade, essa verdade será mais clara ainda se existe uma investigação independente e mais discussão sobre ela. — Isso tem ocorrido desde há muito na Alemanha. — Não queremos confirmar nem negar o Holocausto. Somos contra qualquer tipo de crime, porém queremos saber se esse crime realmente aconteceu. Se ocorreu, os que têm responsabilidade sobre ele, têm que pagar, não os palestinos. Porquê não é permitido investigar um acontecimento que ocorreu há sessenta anos? Outros fatos que têm sido demonstrados como mentiras, e que aconteceram há milênios, são investigados sem problemas em vários Estados. — Sr. Presidente, com todo o respeito, o Holocausto ocorreu, houve campos de concentração, há dossiês sobre o extermínio dos judeus, tem havido muita investigação a respeito e não há a menor dúvida de que existiu, e de que os alemães tiveram culpa, e que o assunto dos palestinos não está conectado com isto, o que nos leva ao presente. — Não, não. As raízes do conflito palestino estão no passado. O Holocausto e a Palestina estão diretamente conectados. E se o Holocausto aconteceu, então devem permitir, a grupos independentes de todo o mundo, estudá-lo. Por que o restringem somente a um grupo? Não me refiro a você, mas a todos os governos ocidentais. — O Sr. continua afirmando que o Holocausto seja um mito? — Só aceitarei algo se estiver totalmente convencido. — Inclusive se a totalidade dos estudiosos na Europa estiverem convencidos? — Na Europa há duas correntes sobre o tema. Uma delas, politicamente motivada, está convencida que sim. Mas há outro grupo de estudiosos, e que em sua maioria se encontra em prisões, que pensa o contrário. Decorre daí que um grupo independente deva ocupar-se da questão, porque a sua elucidação vai contribuir para a solução de problemas globais. Sob o pretexto do Holocausto tem-se produzido uma grande polarização no planeta. Portanto, é importante que um grupo imparcial e internacional trate de esclarecer a investigação, e não encarcerar os estudiosos. — De que investigações fala? Quem deveria participar? — O Sr. conhece-os melhor do que eu: Falo de ingleses, franceses, alemães e australianos. — Seguramente fala do inglês David Irving, o alemão Ernst Zündel e o francês Georges Theil que negam o Holocausto. — O mero fato de que minha opinião tenha causado tanto rebuliço, ainda que eu não seja europeu e que me tenham comparado a certos personagens, indica que o tema tem muita carga emocional. No Irã não haveria este problema. — Estamos levando o tema até aqui por uma razão: O Sr. questiona o direito de Israel existir? — Observe: o que estamos dizendo é que se o Holocausto aconteceu, então a Europa tem que arcar com as conseqüências, não a Palestina. Se não aconteceu, então os judeus devem voltar ao lugar de onde vieram. Creio que os alemães de hoje são prisioneiros do que ocorreu há sessenta anos. Nessa guerra morreram sessenta milhões de pessoas. Somos contrários à morte de qualquer pessoa, sejam judeus, cristãos ou muçulmanos. O que dizemos é: Por que entre os sessenta milhões, vocês só se importam com os judeus? — Porém não é o caso. Todo o mundo lamenta a morte de poloneses, russos e alemães, e outros. Nós, como alemães, não podemos escusar-nos das mortes sistemáticas de milhões de judeus. Mas talvez devamos ir ao próximo tema. — Agora eu tenho uma pergunta para você. Qual foi o papel da juventude atual na Segunda Guerra Mundial? — Nenhum. — Então, porquê essa juventude tem que ter sentimentos de culpa a respeito dos sionistas? Por que os custos dos sionistas devem sair de seus bolsos? Se as pessoas cometeram crimes há sessenta anos, deveriam ter sido julgados então. Fim da história. Porquê os alemães atuais têm que ser humilhados? Porque um grupo de pessoas cometeu crimes em nome dos alemães em um momento da história? — Os alemães de agora não podem fazer nada. Porém há uma parte deles que sente vergonha pelo que fizeram seus pais e avós. — Como uma pessoa pode fazer-se responsável de algo, quando nem sequer tinha nascido? — Não legalmente, porém, moralmente. — Porquê os alemães de hoje têm que carregar esta culpa? Os alemães de hoje não têm culpa. Por que não se lhes permite defenderem-se? Por que se insiste tanto nos crimes de um grupo, ao invés de reivindicar sua grande história? Por que os alemães não podem se expressar livremente? — Sr. Presidente, os alemães sabem que a nossa história não é somente os doze anos do III Reich. Sem dúvida devemos aceitar que estes horríveis crimes foram cometidos em nome dos alemães, e é uma grande conquista do pós-guerra ter feito uma autocrítica sobre o tema. — Vai atrever-se a dizer isso para a sua gente? — Oh, sim, claro. — Então, permitiria que um grupo independente pergunte aos alemães se compartilham da sua opinião? Nenhuma pessoa aceita a sua própria humilhação. — Todas as perguntas estão permitidas neste país, porém há um grupo (não são anti-semitas, mas xenófobos) que consideramos uma ameaça. — Permita-me fazer uma pergunta mais: Quanto tempo mais vai durar isto? Por quanto tempo mais os alemães vão ser reféns dos sionistas? Vinte, cinqüenta, mil anos? — Só podemos falar por nós mesmos. Der não é refém de Israel, nós também criticamos sua política na Palestina. Porém queremos deixar uma coisa clara: somos críticos independentes, porém, não permanecemos impassíveis quanto ao direito de Israel (onde vivem muitos sobreviventes do Holocausto) é questionado. — Precisamente, esta é a questão. Se realmente houve um Holocausto, os israelenses devem ser recolocados na Europa, não na Palestina. — Quer retornar milhões de pessoas, sessenta anos depois da guerra? — Cinco milhões de palestinos não têm casa há sessenta anos. Vocês têm pago reparações de guerra durante sessenta anos e ainda restam outros cem anos. O quê o destino dos palestinos tem a ver com isso? — Os europeus apóiam aos palestinos de diferentes maneiras. Depois de tudo, temos uma responsabilidade pela paz na região. O Sr. não compartilha dessa responsabilidade? — Sim. Porém, a repetição do Holocausto não vai trazer a paz. O que queremos é uma paz que perdure. E isso quer dizer que há que ir à raiz do problema. É admirável a sua sinceridade ao declarar o seu apoio aos sionistas. — Eu não disse isso. — Você disse israelenses. — Sr. Presidente, nós conversamos sobre o Holocausto, pois queremos conversar sobre o possível armamento atômico do Irã, e por isso o Sr. é visto como um perigo para o Ocidente. — Vários grupos do Ocidente gostam de classificar coisas, ou pessoas, como perigosas. Por favor, esteja livre para julgar da forma que lhe parecer mais correta. — A questão principal é: O Sr. quer armas nucleares para o seu país? — Me permita desenvolver uma discussão: Por quanto tempo o Sr. acha que ainda se pode governar o mundo com a retórica de algumas potências ocidentais? Assim que se encontre algo que possa ser usado contra uma pessoa, já começam com a propaganda e mentiras, com difamação e ameaças. Por quanto tempo isso deve durar? — Nós estamos aqui para descobrir a verdade. O Chefe de Estado de um país vizinho declarou a Der Spiegel: They are very keen on building the bomb. Está correto? — Nossa discussão com nosso vizinhos e com os governos europeus dá-se em outro nível, mais elevado. Nós somos da opinião que esta Ordem Mundial, onde alguns países impõem a sua vontade perante o resto do mundo é discriminatória e instável. Cento e trinta e nove países são membros da Agência Internacional de Energia Atômica, a IAEA, em Viena, e nós também. Tanto o estatuto da IAEA, assim como o Tratado de Não Proliferação de Armas Atômicas, e também todo o conjunto de acordos de segurança, permitem que os países membros disponham do enriquecimento de urânio para fins pacíficos; isto é um direito legítimo de qualquer povo. Mais além, a Agência Internacional de Energia Atômica também foi acionada para promover o desarmamento daquelas potências que já possuam armas atômicas. E agora observe o que acontece hoje: O Irã tem o melhor trabalho em cooperação com a IAEA. Mais de duas mil vezes tivemos inspeções em nossas instalações; os inspetores receberam documentos com mais de mil páginas. Suas câmeras estão instaladas em nossas centrais nucleares. Em todos os relatórios, a IAEA salientou que não há qualquer indício de irregularidades. Este é um dos lados. — A IAEA não vê da mesma forma que o Sr.. — Entretanto, o outro lado é: Existem alguns países que possuem tanto a energia atômica, assim como armas nucleares. Eles utilizam suas armas nucleares para ameaçar outros povos. Justamente estas potências estão preocupadas que o Irã desvie-se do caminho do uso pacífico. Nós dizemos que se estas potências estão preocupadas, elas podem nos inspecionar. Estas potências dizem, porém: "os iranianos não podem fechar o ciclo de enriquecimento de urânio, pois então abre-se a possibilidade deles se desviarem do uso pacífico". Nós dizemos que esses países já se distanciaram há muito tempo do uso pacífico. Essas potências não têm o direito de conversar conosco dessa maneira. Essa Ordem é injusta, ela não pode prevalecer. — Sr. Presidente, todavia, a pergunta crucial é: Quão perigoso torna-se o mundo se mais países entrarem para o rol das potências atômicas, se um país como o Irã, cujo presidente faz ameaças e constrói a bomba numa região em crise? — Nós somos por princípio contrários ao aumento do arsenal com armas atômicas. Por isso sugerimos que uma organização apartidária seja criada e desarme as potências atômicas. Nós não necessitamos de qualquer arma. Nós somos um povo civilizado e com uma rica cultura. Nossa cultura mostra que nós nunca atacamos outro país. — O Irã não precisa da bomba que ele quer fabricar? — É interessante que os países europeus queriam em outra época fornecer armas atômicas ao regime ditatorial do Xá. Este regime era perigoso, mas mesmo assim eles estavam dispostos a fornecer a ele tecnologia nuclear. Mas desde que existe a República Islâmica, estas potências estão contra. Eu saliento mais uma vez, nós não necessitamos de armas atômicas. Como nós somos fiéis e agimos de acordo com a lei, nós mantemos a palavra dada. Nós não somos trapaceiros. Nós só queremos fazer valer nossos direitos. Além disso, eu não ameacei quem quer que seja, e isso também vale para a máquina da propaganda contra mim que funciona em seus países. — Não seria então necessário mencionar que ninguém deve ter medo diante da possibilidade de que o Sr. possa produzir armas nucleares, as quais o Sr. possivelmente poderia utilizar contra Israel e deflagrar uma eventual guerra mundial? Sr. Presidente, o Sr. está sentado sobre um barril de pólvora. — Me permita dizer duas coisas: Nenhum povo da região tem medo de nós. E ninguém deve amedrontar os povos. Nós acreditamos que se os EUA e dois ou três países europeus não se intrometessem, então os povos da região iriam conviver normalmente como sempre conviveram nestes últimos milênios. Saddan Hussein também foi instigado em 1980, por países europeus e pelos EUA, a iniciar uma guerra contra nós. Em relação à Palestina, nossa posição é bem clara. Nós dizemos: Permitam que os proprietários dessas terras exprimam as suas opiniões. Permitam que judeus, cristãos e mulçulmanos apresentem as suas opiniões. Os opositores desta proposta fomentam a guerra e ameaçam a região. Porquê os EUA e esses dois ou três países europeus são contra? Eu creio que aqueles que aprisionam os que negam o Holocausto, são a favor da guerra e contra a paz. Nosso ponto de vista é democrático e a favor da paz. — Os palestinos estão um passo à frente do Sr. há muito tempo. Eles reconhecem Israel de fato, enquanto o Sr. deseja expulsá-los do mapa. Os palestinos estão prontos para uma solução com dois Estados, enquanto o Sr. nega a Israel o direito à existência. — O Sr. se engana. O Sr. viu que o povo escolheu o Hamas em eleições livres na Palestina. Nós dizemos que nem os Srs., nem nós mesmos devemos nos arvorar porta-vozes do povo palestino. Os palestinos devem dizer, eles mesmos, o que querem. É comum na Europa a realização de referendos para cada tema; devia-se também dar aos palestinos a possibilidade de expressão da própria opinião. — Os palestinos têm o direito ao seu próprio Estado, mas os israelenses logicamente também, segundo nossa visão. — De onde vêm os israelenses? — Sabe, se nós formos reconsiderar e perguntar de onde vêm as pessoas, então todos os europeus devem retornar à África, de onde todas as pessoas são originárias — Nós não falamos sobre os europeus, nós falamos sobre os palestinos. Os palestinos estavam na Palestina. Agora tornaram-se cinco milhões de refugiados. Eles não têm direito à vida? — Sr. Presidente, não é então hora de dizer: O mundo é como ele é, e nós devemos nos adequar ao status quo em que ele se apresenta? Após a guerra contra o Iraque, o Irã está, sim, em uma posição favorável. A América perdeu de fato a Guerra do Iraque. Não é então chegado o tempo do Irã atuar construtivamente para a paz no Oriente Médio? E isso não significaria que o Irã abdique de seus planos atômicos e discursos radicais? — Eu me espanto como o Sr. incorpora a posição dos políticos europeus e a defende fanaticamente. O Sr. é uma revista e não um governo. Dizer que nós devamos aceitar o mundo como ele se apresenta hoje, significa que os vencedores da Segunda Guerra Mundial permanecerão potências vitoriosas por mil anos, e que o povo alemão deverá ser humilhado por outros mil anos. O Sr. pensa que essa seja a lógica correta? — Não, não é a lógica correta, e também não se insere no contexto. Os alemães têm uma participação humilde mas importante nos fatos mundiais a partir dos desenvolvimentos do pós-guerra; eles não se sentem desde 1945 humilhados e indignados. Nós somos muito conscientes. Todavia, nós queremos conversar agora sobre o papel atual do Irã. — Então nós aceitaríamos que palestinos sejam mortos diariamente, morram através de atos de terrorismo de Estado e que suas casas sejam destruídas. Mas me permita falar sobre o Iraque. Nós sempre fomos a favor da paz e segurança na região. Os países ocidentais armaram militarmente Saddam ao longo de oito anos contra nós, inclusive com armas químicas, e o apoiaram politicamente. Nós éramos contra Saddam, nós sofremos sérios danos por sua causa; nós estamos felizes que ele tenha caído. Mas nós não aceitamos que um país seja engolido com a desculpa de retirar Saddam. Mais de 100.000 iraquianos foram mortos sob o domínio dos invasores. Felizmente, os alemães não estão entre eles. Nós queremos segurança no Iraque. — Mas, Sr. Presidente, o que engoliu o Iraque? A guerra está praticamente perdida para os EUA. Se o Irã tivesse uma participação construtiva, os americanos poderiam ser ajudados e poderiam pensar em uma retirada. — Os americanos dominam o país, matam pessoas, vendem o petróleo, e se eles perdem, colocam a culpa nos outros. O povo iraquiano tem estreitos laços conosco. Muitas pessoas em ambos os lados da fronteira são parentes entre si. Nós temos convivido durante milhares de anos. Nossas cidades sagradas localizam-se no Iraque. O Iraque foi um centro da civilização, da mesma forma que o Irã. — E o que se segue? — Nós sempre dissemos que apoiaríamos o governo eleito pelo povo iraquiano. Mas no meu ponto de vista, os americanos fazem errado. Eles nos enviaram várias vezes mensagens pedindo ajuda e trabalho mútuo. Eles disseram que nós deveríamos entabular conversas com o Iraque. Embora nosso povo não deposite confiança nos americanos, nós aceitamos a oferta e tornamos isso público. A América se expressou de forma negativa; ela nos ofendeu. Agora nós participamos também para a segurança no Iraque. A condição para conversações é a de que os americanos mudem o tom. — O Sr. se alegra às vezes em provocar os americanos e o resto do mundo? — Não, eu não ofendo ninguém. A carta que eu escrevi ao Sr. Bush foi cordial. — Nós não nos referimos a ofender, mas sim a provocar. — Não, nós não nutrimos inimizades com quem quer que seja. Nós estamos preocupados com os soldados americanos que morrem no Iraque. Por que eles devem deixar sua vida lá? A guerra perdeu o sentido. Por que existe guerra se existe a razoabilidade? — A carta que o Sr. escreveu ao presidente, é também dirigida aos americanos, ela sugere que se inicie uma negociação direta? — Nós expusemos claramente a nossa posição, e vemos a situação do mundo exatamente desta maneira. O ambiente político foi fortemente profanado por algumas potências, pois à vista delas, é legítimo mentir e enganar. Em nossa opinião isso é muito ruim. Para nós, todas as pessoas merecem respeito. As relações devem ser regularizadas através do princípio da Justiça. Se a Justiça impera, impera a paz. Comportamentos incorretos não têm fundamento ou justificativa, mesmo se Ahmadinejad se expressasse ao contrário. — Nesta sua carta ao presidente americano, há uma passagem sobre o 11 de setembro. Nós citamos: "Como poderia tal operação ser planejada e coordenada sem a cooperação dos serviços secreto e de segurança, e sem a infiltração mundial desses serviços?" Para o Sr., pairam muitas suposições. O que quer dizer isso? A CIA contribuiu para que Mohamed Atta e outros dezoito terroristas tenham levado a cabo suas ações? — Não, eu não me referi a isso. Nós somos da opinião que eles devam dizer quem são os culpados. Eles não devem, sob o pretexto do 11 de setembro, atacar militarmente o Oriente Médio. Eles devem levar os culpados à justiça. Nós não somos contra, nós condenamos o atentado. Nós condenamos toda a ação contra pessoas inocentes. — Nessa carta o Sr. também escreveu que a propagação do liberalismo ocidental fracassou. Como o Sr. chegou a essa conclusão? — Para o problema palestino, o Sr. tem milhares de definições, e também a democracia é definida diferentemente em cada discurso. Quando um fenômeno depende da opinião de muitos indivíduos, os quais definem o fenômeno subjetivamente, então não faz sentido; com isso não se pode solucionar os problemas mundiais. Precisa-se de um novo caminho. Nós somos naturalmente favoráveis que prevaleça a vontade livre do povo, mas precisamos de princípios básicos que todos aceitem, por exemplo, a Justiça. Nisto, o Irã e o Ocidente estão de acordo. — Qual é o papel da Europa para a solução do conflito atômico e o que o Sr. espera da Alemanha? — Nós promovemos uma boa relação com a Europa, principalmente com a Alemanha. Ambos os povos se apreciam. Nós estamos interessados que esta relação seja ampliada. A Europa cometeu três erros em relação ao nosso povo. O primeiro erro foi apoiar o regime do Xá. Por causa disso, nosso povo está decepcionado e infeliz. A França com certeza, pelo fato de ter acolhido o Imã Komeini, obteve uma posição especial que, porém, perdeu mais tarde. O segundo erro foi apoiar Saddam na guerra contra nós. A verdade é que nosso povo esperava ver a Europa ao nosso lado e não contra nós. O terceiro erro foi o comportamento na questão nuclear. A Europa será a grande perdedora e não ganhará nada com esse conflito. Nós não queremos isso. — Como se desenrolará daqui para a frente o conflito entre o mundo ocidental e o Irã? — Nós entendemos a lógica dos americanos. Eles tiveram perdas pela vitória da revolução islâmica. Mas nós nos espantamos pelo fato de alguns países europeus estarem contra nós. Na questão nuclear, eu enviei uma mensagem onde indaguei o porquê dos europeus nos repetirem as palavras dos americanos. Eles sabem que as nossas atividades são orientadas para fins pacíficos. Se os europeus ficarem ao nosso lado, será do seu interesse e do nosso. Mas se eles se posicionarem contrários a nós, então eles terão de arcar com as conseqüências, pois o nosso povo é forte e decidido. Os europeus estão perdendo totalmente o seu papel no Oriente Médio, e em outras regiões do mundo eles perdem o seu bom nome. Poderemos pensar que eles não estão mais em posição de resolver problemas. — Sr. Presidente, obrigado pela entrevista.
Entrevistadores da Der Spiegel: Gerhard Spörl Stefan Aust Dieter Bednarzm
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